DIRETRIZES

RESISTÊNCIA POPULAR

Muita gente está de acordo com nossos princípios e práticas cotidianas. Porém, é difícil imaginar qual o melhor caminho para nos levar onde queremos. Diante deste abismo entre o nosso objetivo e o hoje, é que muita gente desiste, avalia que apenas sonhamos, etc. A falta de perspectiva leva ao ceticismo, a atitudes desesperadas, inconseqüentes, na maioria das vezes, com resultados frustrantes.

A nossa força, a nossa energia, as nossas esperanças não podem ser gastas à toa. Nossa ação no dia-a-dia não pode ser inerte, voltada para coisas que não dão em nada. Numa época de tanto ceticismo, com o sistema trabalhando para que todos desanimem e não façam nada, nossa prática tem que ser motivo de ânimo para as pessoas, tem que mostrar que é possível ir fazendo as coisas acontecerem.

A AMEI tem a função de estabelecer uma ponte entre nossos objetivos finalistas e as lutas de hoje, de discutir através de que meios podemos encaminhar melhor os nossos pleitos. Nosso objetivo finalista, de longo prazo é contribuir para a edificação do governo participativo, através da construção de um processo avanço do poder popular. Mas, alcançar este objetivo finalista requer um processo de acúmulo de forças que não se faz da noite para o dia e situa-se no longo prazo. É preciso então caminhar rumo a este objetivo, mas isso implica reconhecer que estamos distantes dele e que termos que vencer batalhas, etapas.

O que fazer no curto prazo? Quais são nossos objetivos e meios hoje? O que está contido aqui é o que avaliamos ser o melhor caminho a seguir no momento atual. É o caminho que muitas pessoas estão dispostas a trilhar para que esta comunidade possa um dia ser transformada radicalmente.

Como objetivo estratégico procuramos avaliar o que queremos alcançar nesta etapa, e quando falamos em etapa, estamos nos referindo a médio prazo (algo em torno de 5 anos).

A maioria dos movimentos sociais hoje existentes segue uma postura conciliadora, quando não submissa. Não se procura questionar o sistema atual como um todo, mas apenas os problemas pontuais. Enfim, predomina uma política reformista e os setores combativos são minoria, têm peso restrito. Quase todos os movimentos e entidades que deveriam ser representativas de nossa classe estão burocratizados e dirigidos por pelegos.

Levando isso em conta, concluímos que a tarefa para esta etapa, o nosso objetivo estratégico, é dinamizar o movimento comunitário, fazer com que os setores formadores de opinião ganhem peso efetivo e acumulem forças.

Estratégia

É necessário que existam pólos onde as pessoas encontrem uma referência de luta. Um espaço aberto onde se reúnam, tenham liberdade para expor suas idéias, encontrem e conheçam outros companheiros, discutam e encaminhem suas lutas coletivamente.

Mas não é qualquer tipo de atividade que serve como referência. Queremos mostrar uma opção de luta classista e combativa, isto é, sem se submeter a políticos e manda chuvas, sem paternalismo e assistencialismo, envolvendo o coletivo nas lutas diretamente.

Só com muita luta a classe média se unirá em torno de objetivos concretos e aprenderá a se organizar. Mesmo que sejam lutas parciais, o que importa é ir acumulando força, elevando a auto-estima da população e aprendendo com erros também. As lutas geram situações combativas, afloram conflitos de classe, mostram as contradições do atual sistema, aí sim e faz a verdadeira resistência popular.

Meios para lutar

O caminho para se gerar as lutas deverão sempre levar em conta a realidade local. A nossa estratégia, válida em qualquer frente, é a de promover lutas por questões concretas e que elevem o grau de combatividade.

Podemos alcançar isso de duas formas. A primeira delas é quando os principais membros ainda não têm inserção no bairro, isto é: não mora por lá, não é visto como referência pelas pessoas, não é visto como parte daquele local. Neste caso é necessária uma etapa prévia de inserção social, que pode levar um certo tempo. Isto é um pré-requisito, afinal de contas, para que impulsionemos as lutas, é preciso que sejamos vistos como referência no local.

Para a etapa de inserção social algumas atividades podem ser desenvolvidas. Trata-se de atividades que tenham a ver mais com o plano das idéias, são exemplos disso: jornal do bairro, atividades culturais, formação política, etc. Estas atividades não alteram a realidade das pessoas, discutem mas não resolvem as condições de vida das pessoas, portanto não devem ser encaradas como um fim em si mesmas, mas apenas como meio para se inserir socialmente nos bairros.

A partir daí avançamos para lutas mais concretas. A definição por um ou outro tipo de luta decorre de uma análise da realidade local, das necessidades manifestadas pelas próprias pessoas e de nosso planejamento político. Deixamos então de trabalhar apenas conscientização para buscar a transformação da realidade. Exemplos de questões que mexem com as necessidades materiais e objetivas: segurança, saúde, água, saneamento básico (esgoto e limpeza), transporte, trânsito, ecologia, lazer, trabalho,
conquista e/ou melhoria da infra-estrutura do Bairro, etc.

É um tipo de luta que aglutinará mais gente. Pessoas que chegarão pela necessidade e não apenas por consciência. Neste caso o trabalho de conscientização não é prévio, mas paralelo às lutas, muitas vezes acontecerá avaliando os resultados depois.

Apesar desta etapa ser marcada por lutas mais concretas, isto não significa o abandono de atividades que eram realizadas na etapa de inserção social. Um espaço onde exista discussão, debate, acesso a informação, formação política e educação popular é fundamental para as nossas lutas. Além disso, as lutas mais combativas raramente são constantes e nos intervalos entre uma e outra é necessário que se mantenha o fogo aceso, que as pessoas possam se encontrar, trabalhar coletivamente, discutir e avaliar as próprias lutas, e preparar as próximas batalhas.

O que fazer diante do Governo?

Depois de se inserir socialmente, e depois que a população levantou os principais problemas do bairro/comunidade como conquistar o que é necessário?

Boa parte das reivindicações da AMEI são serviços públicos da Prefeitura da Cidade ou do Governo do Estado (vamos chamá-los daqui para frente de governo). Sabemos que os recursos do governo vem de impostos cobrados do povo e de empresas. Parte do dinheiro sai direto do nosso bolso, outra parte sai de impostos cobrados das empresas. Mas, os trabalhadores é que geram os lucros das empresas, então o patrão (quando paga imposto) tira um pouco para pagar ao governo. No final das contas o cidadão é quem paga todos os impostos, direta ou indiretamente.

Sabendo disso o dinheiro que está com o governo é, e deve ser, nosso, nos foi tirado. Mas o governo só serve para ajudar os poderosos e roubar uma boa parte para eles próprios. O resultado é que não há dinheiro nem para as coisas mais básicas na periferia da nossa cidade, imagine então para os bairros de classe média.

Temos de um lado as várias necessidades, que devem virar reivindicações do nosso Bairro. Do outro lado temos as verbas, que a nossa classe gerou e que deve ser nossa por justiça. Devemos então reivindicar junto ao governo aquilo que é necessário. Não podemos aceitar sem luta, a postura de que "o Estado é assim mesmo, vamos fazer nós mesmos" imaginando que isso é "autogestão". Esta seria uma "autogestão" adorável para o Estado que nos extorque dia-a-dia, não precisa gastar nada porque a população em "autogestão" resolveu o problema.

Hoje em dia é comum ver o Estado apelando para a "participação popular", "trabalho voluntário", "co-gestão" e outras lorotas, que servem para economizar verba, empregar gente sem salário e aumentar ainda mais o desemprego. Esta é "autogestão do vento", que não gera conflito nem luta de classes; pelo contrário, alivia tensões e resolve problemas para o Estado. Resumindo: não gera resistência popular, gera a "autogestão da miséria". Portanto, nos cabe reivindicar do Estado o que é nosso e não deixar as verbas, que são nossas por justiça, de mão beijada para o Estado e a grande parte dos políticos.

Mobilizações Populares

Na luta por nossas reivindicações quais são as nossas armas? O Estado não vai atender nossas reivindicações à toa ou por bondade, isso é certo. As reivindicações não são concedidas, são conquistadas, a história mostra isso. Trata-se de um jogo de forças e não de convencimento. Os trabalhadores em muitos setores tem o poder de parar a produção e causar prejuízos diretos aos capitalistas, possuem uma arma: a força da pressão econômica. E as armas das associações comunitárias quais são?

Normalmente as reivindicações da comunidade são conquistadas por pressão política, através de atos e manifestações que consigam repercussão e pressionem o governo (Estado, prefeitura).

Para que exista repercussão e visibilidade são necessárias duas coisas. A primeira delas é que as mobilizações se façam em locais que chamem a atenção da população e da imprensa. Uma manifestação num bairro da periferia não vai incomodar a ninguém, talvez aos vizinhos que sofrem com as mesma situação e nada mais. Ou seja, não terá efeito de pressão política algum.

Mobilização popular requer locais estratégicos. Isto é, para os centros das cidades, para a sede da Prefeitura ou Governo do Estado, sede de órgãos da administração pública, fechar ruas importantes parando o trânsito, etc. Isso vai depender de cada momento e cada localidade em luta. Quando se interfere nas ruas e se prejudica o transporte, isso traz prejuízos, aí dói no bolso de muita gente. A mobilização tem que ser a maior possível, porque na frente comunitária o poder de pressão depende muito do número, uma vez que a pressão política se faz mais forte quanto maior é a sua repercussão. Um número pequeno de gente não pressiona ninguém e corre o risco de ser reprimido ou fazer um papel ridículo.

Na medida em que a mobilização tem efeito sobre a rotina da cidade, o movimento torna públicas suas reivindicações e quase sempre chama a atenção da mídia. Ele ganha visibilidade e isso preocupa o governo. O efeito de romper o cerco de silêncio, mostra que nem tudo vai bem para a grande massa da opinião pública. Gera-se um clima de instabilidade política que ajuda a revelar o desamparo em que vive a população aparentemente abastada. Isso deslegitima o poder junto à opinião pública trazendo problemas locais para uma discussão em toda a sociedade. Na mesma medida em que o poder é deslegitimado, o associação ganha simpatia popular e novas adesões.

Quanto maior a situação de pressão o governo é forçado a negociar em termos mais vantajosos e fazer maiores concessões ao bairro. Quanto mais organizado e unido estiver o movimento, menos chance o governo terá de rachá-lo, e mais fortes se tornam às reivindicações.

Consciência anti-estatal

O fato de reivindicar do Estado não tem a nada a ver com legitimá-lo. Reivindicar verbas é uma questão de justiça, pois as verbas são nossas e não do Estado. Também deve ficar bem claro que não se deve aceitar nenhum tipo de vínculo ou subordinação ao Estado para que reivindicações sejam atendidas.

Logicamente existem situações urgentes onde será necessário resolver os problemas a partir dos recursos materiais da própria comunidade. Outra vez, mesmo depois de muita luta, não vamos conseguir o que queríamos, também nestes casos é legítimo buscar soluções dentro da própria comunidade. Além disso, lutaremos sempre para gerir os recursos públicos de maneira autogestionária, ou seja, com a própria comunidade decidindo coletivamente.

De uma forma ou de outra temos a oportunidade de desmascará-lo, de mostrar que suas promessas são irrealizáveis e de que as conquistas são fruto da luta dos moradores e não de concessões. Paralelamente vamos mostrando, pouco a pouco, uma alternativa de organização social não estatal, de baixo para cima, desenvolvendo uma consciência anti-estatal na população.

Bandeiras de Luta

As bandeiras de luta devem ser encaradas como instrumentos de pressão e aprendizado do povo em luta. Precisamos criar a consciência de que as reivindicações são feitas em conjunto e com luta, sempre visando um objetivo maior e questionando de todas as formas a conciliação. Sabemos que são reivindicações parciais e que não vai ser isso que mudará a estrutura do sistema, mas temos que começar por algum ponto, ir reforçando a confiança do povo em si mesmo, mostrando a verdadeira cara do governo, e avançando para lutas mais amplas com o tempo.

O poder dos políticos emana do voto popular. Portanto, cabe ao eleitor a responsabilidade de escolher o candidato que reúna as qualidades necessárias para exercer o poder com justiça, competência e transparência.
     
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